
São raros os casos em que eu leio um livro, depois vejo o filme baseado nele, e o filme me surpreende positivamente. Esse foi um caso que fiz questão de assistir ao filme logo que foi lançado, há bastante tempo, em 2008. Escrevi a respeito no meu blog antigo, na época, e agora, 12 anos depois, no meio de uma pandemia, achei interessante revisitar esse assunto.
Quando ouvi que o livro seria adaptado para o cinema, fiquei extremamente curioso . Esse era um livro cuja adaptação para o cinema seria extremamente complexa e poderia ter um resultado muito ruim. Mas, para minha feliz surpresa, o diretor Fernando Meirelles conseguiu traduzir em grande parte a crueza do livro, amenizando em algumas, contando com uma fotografia muito boa e acabou na minha opinião com um resultado final bem interessante.
Foi o primeiro livro que li do Saramago, se não me engano. Um livro extremamente forte, denso, nas palavras do próprio autor:
“Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.”
Realmente o livro narra uma situação angustiante, onde uma espécie de doença que deixa as pessoas cegas, de uma hora pra outra. Mas não é uma estória a respeito da doença em si, mas uma estória a respeito da perda da dignidade humana, em um cenário extremo onde numa pandemia se perdem as noções de humanidade, empatia, sociedade, onde instintos básicos, selvagens de sobrevivência afloram e os personagens passam a se aproximar muito mais de animais do que ao que costumamos entender por seres humanos.
Como sempre, estórias fortes e densas despertam reações, algumas vezes com razão, e em outras de maneira desproporcional e – por que não dizer – despropositada. Na época do lançamento, a Federação Nacional de Cegos dos EUA protestou e promoveu boicote ao filme. Acabaram associando as barbáries do filme, perpetradas por cegos, como uma tentativa de estereótipo. Mas qualquer um que consiga entender que o filme não é sobre a cegueira, não é sobre a doença, é sobre a perda da nossa humanidade, saberia dizer que não há motivos para tal interpretação.

Trazendo um paralelo para a pandemia que nos foi apresentada em 2020, eu continuo achando que situações extremas nos trazem o que há de melhor e pior dentro de cada um de nós. O funcionário público de alto escalão que dá a “carteirada”, os “cidadãos de bem” que desrespeitam agentes públicos e trabalhadores, essas pessoas sempre existiram, e suas posturas e atitudes não são novas, só foram amplificadas pela situação. Acredito fortemente que independentemente de religião, posição política, social, ou qualquer outro motivo, devemos respeito ao próximo, e sempre fazermos o exercício de nos colocarmos no lugar do outro. Além da pandemia da COVID-19, acho que há também uma pandemia silenciosa de cegueira. Não aquela cegueira física retratada por Saramago, mas uma cegueira seletiva metafórica, que impede algumas pessoas de enxergarem a noção do que é sermos humanos, no sentido mais amplo da palavra… Que venham tempos melhores por aí…
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